ÉTICA E POLÍTICA, AÇÕES FUNDAMENTAIS AOS HOMENS DE BOA VONTADE.
Pensar a ética e o respeito à coisa pública é pensar o sentido da cidade, sua importância, bem como a razão de ser de sua existência. Para os gregos, sobretudo, no apogeu de sua expressão cultural, a cidade assumia posição central no que se referia à vida pública. A cidade era o lugar do encontro, da aproximação, do socorro, da solidariedade e da amizade.
A cidade, no universo dos gregos, não resultava num conglomerado de pessoas. Para o filósofo francês Jean-Pierre Vernant, na obra As origens do pensamento grego, “os que compõem a cidade, por mais diferentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função, aparecem de uma certa maneira ‘semelhantes’ uns aos outros. Esta semelhança cria a unidade da pólis, porque, para os gregos, só os semelhantes podem encontrar-se mutuamente pela Philia, associados numa mesma comunidade.” É a amizade que dá sentido a existência da cidade. Os homens de boa vontade são acima de tudo homens da philia, isto é, da amizade.
O cidadão, o homem da cidade, deve permanentemente preocupar-se com o que é público. Sua amizade, seu amor à coisa pública o faz um zeloso amante do que pertence à comunidade. Os gregos, por exemplo, participavam de debates, os quais levavam semanas pondo em questão propostas, idéias ou qualquer questão que fosse relativa ao bem público. A moleza e o desânimo não faziam parte da alma de tal homem. O espaço reservado ao debate era a agorá, praça pública, era aí que se efetivavam os mais acalorados debates. Todos os cidadãos tinham o direito à palavra. Todos deviam fazer uso de tal instrumento. Daí a importância da retórica (arte de falar bem), mas não só da retórica, pois uma bela fala pode não dizer a verdade e a cidade inteira poderia vir a sofrer penalidades. O que importava acima de tudo era o respeito, o amor, o cuidado com a coisa pública.
O espírito do republicano estava presente aí. Tal preocupação na Modernidade não se distanciava das inquietações dos gregos. Rousseau no Contrato Social afirma: “Chamo, pois, República a todo Estado regido por leis, qualquer que seja a sua forma de administração, porque só então o interesse público governa e a coisa pública significa algo. Todo governo legítimo é republicano”. As palavras do filósofo genebrino mostram de maneira enfática que fora do republicanismo que emana do povo não há condições para se afirmar a ética nem a política como ações que expressem a grandeza do zelo ao que é público. Assim, o homem de boa vontade deve estar presente, repudiar o engano e assumir para si a defesa da cidade. Ele e seus concidadãos devem ser o que Platão em sua A República conceituou de guardiões, aqueles que se voltam permanentemente a uma zelosa ação de respeito à coisa pública.
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